Conflitos na Educação Infantil: Por que eles acontecem e como ajudam no desenvolvimento das crianças?

Quem convive com crianças pequenas sabe que disputas por brinquedos, disputas de espaço ou a dificuldade de esperar a sua vez fazem parte do dia a dia. Para os adultos, esses momentos podem parecer desgastantes, mas, sob a ótica do desenvolvimento infantil, os conflitos são grandes oportunidades de aprendizado socioemocional.
Na Primeira Infância, a linguagem emocional e as funções executivas — habilidades cerebrais responsáveis pelo autocontrole, foco e flexibilidade cognitiva — ainda estão em plena fase de construção. É por isso que a impulsividade, a curiosidade intensa e as reações efusivas aparecem com frequência: a criança ainda está aprendendo a reconhecer, nomear e autorregular o que sente.
O que diz a BNCC?
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) destaca que o aprendizado na Educação Infantil ocorre prioritariamente por meio de interações e brincadeiras.
No campo de experiência "O eu, o outro e o nós", a habilidade EI02EO07 reforça a importância de resolver conflitos nas interações e brincadeiras, com a orientação de um adulto. A norma orienta que a escola promova a construção da identidade, a percepção do próprio corpo e das emoções, a convivência em grupo e o respeito às diferenças.
Aprender a conviver envolve passar por divergências e entender como superá-las de forma respeitosa e empática.
O adulto como mediador, não como juiz
Quando surge uma disputa, o papel do educador ou responsável não é apenas interromper a "briga" ou apontar culpados, mas atuar como mediador social. Por possuir maior maturidade emocional e discernimento, o adulto se posiciona como um guia seguro para ajudar a criança a se acalmar, compreender o que está sentindo e encontrar caminhos para resolver o problema.
O processo de mediação consciente segue passos claros:
- Acolher as emoções: Validar o que a criança está sentindo (ex: "Entendo que você ficou chateado").
- Ouvir sem julgar: Dar espaço para que os envolvidos expressem sua perspectiva da história.
- Definir o problema: Ajudar as crianças a nomear o impasse (ex: "Vocês dois querem brincar com o mesmo carrinho ao mesmo tempo").
- Pensar em soluções juntas: Estimular a autonomia perguntando como podem resolver o problema.
- Combinar as ações: Acordar uma alternativa justa e acompanhar o cumprimento.
Transformando disputas em autonomia
Em vez de encarar a frustração diante de novas regras, a disputa por brinquedos ou a ansiedade para falar no lugar do colega como "inadequações", o olhar pedagógico acolhedor os enxerga como oportunidades valiosas de aprendizagem social.
Nenhum desses comportamentos é um desvio; são respostas naturais do cérebro em desenvolvimento testando limites e buscando formas de se expressar. Quando acolhemos a atitude da criança não para punir, mas para ensinar, transformamos o conflito em uma verdadeira "sala de aula das emoções".
É nesse cotidiano — ao negociar o uso de um material, esperar a sua vez na roda de conversa ou aceitar uma regra combinada — que a criança exercita a empatia, aprende a autorregulação e desenvolve autonomia de fato. A escuta ativa e o diálogo contínuo deixam de ser simples ferramentas de resolução de problemas e passam a pavimentar o caminho para a formação de cidadãos conscientes, seguros e capazes de conviver harmoniosamente em grupo.
Referências Bibliográficas
- BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018.
- SIEGEL, Daniel J.; BRYSON, Tina Payne. O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente do seu filho e ajudar sua família a prosperar. São Paulo: nVersos, 2014.
- VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
Letícia Aquino
Coordenadora Pedagógica
Educação Infantil e Year 1
Programas e parceiros
















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